No final de cada campeonato, todos se preocupam em fazer balanços. Repensar o passado para projectar o futuro é o objectivo de todos os treinadores assim que a época termina. Para Patrícia Atilano, treinadora de basquetebol feminino, o balanço só faz sentido quando todos percebem o enquadramento. Em entrevista ao sítio oficial do Clube, a treinadora faz uma análise à época e explica aos adeptos do seu Clube, o que é a equipa sénior de basquetebol feminino. Conheça um pouco mais deste projecto.
Como é a realidade do basquetebol feminino do Vitória?
A maior parte dos sócios do Vitória não sabem o que é a equipa sénior de basquetebol feminina. Este projecto surgiu como uma forma de dar rotatividade a uma equipa de juniores que na altura se sagrou campeã nacional. E, hoje, a equipa é ainda constituída maioritariamente por juniores.
Mediante este cenário, quais eram os vossos objectivos?
Queríamos fazer uma boa época para que as pessoas começassem a olhar para nós com outros olhos e para que se apostasse mais na equipa sénior feminina. Gostaríamos de ter conquistado mais vitórias para mostrar que este é um projecto válido e em crescimento. A nível de números, tínhamos como meta os seis triunfos mas não o conseguimos. Sabia que era um objectivo difícil de atingir mas queria elevar a fasquia de modo a elevar a motivação das minhas atletas em determinados jogos. Agora, percebo que a fasquia demasiado alta causou algum nervosismo e elas foram-se desmotivando à medida que a meta se ia distanciando.
Faz, por isso, um balanço negativo?
A nível interno, o balanço não é positivo. Tenho um grupo ambicioso e não posso, por isso, fazer um balanço positivo desta época. Contudo, se as pessoas são despedidas e contratadas com base em números, os números estão aí. Tivemos duas vitórias, que são o dobro do ano passado. Há uma evolução da maturidade das atletas a nível de jogo. Somos uma equipa mais experiente, porque também os erros que cometemos levaram a uma evolução. Esperávamos mais e terminámos a época com um sentimento de desilusão. Sentimo-nos tristes porque não atingimos aqueles que eram os objectivos internos.
Quais foram as principais dificuldades desta época?
Estou com estas jogadoras há nove anos e havia um espírito de união muito forte. Percebi que essa união foi-se diluindo ao longo da época. Elas não percebiam porquê mas é claro que as derrotas levam a desunião de um grupo. A parte mais difícil foi gerir as emoções. Durante anos, estas atletas só sabiam ganhar e o subconsciente delas não estava preparado para ir atrás do prejuízo. Foi, por isso, muito difícil manter a equipa motivada. Eu sou uma defensora da psicologia desportiva mas até nesse aspecto sinto que perdi. Não estou habituada a perder e eu também não consegui passar-lhes força anímica para descontextualizar um pouco a má época que estavam a fazer. Apesar das dificuldades, sinto que temos crescido juntas neste projecto e penso que não esgotámos o que temos para evoluir. A equipa ainda tem muito para me dar e eu tenho ainda muito para lhes dar também.
Como vai conseguir motivar as atletas para a próxima época?
Primeiro, terei de saber se a Direcção conta comigo para o comando da equipa sénior na próxima época. Mas, independentemente disso, eu estou já a prepará-la e isso deve-se à minha paixão pelo basquetebol. Gosto demasiado do jogo e demasiado destas atletas, que são parte da minha família, para estar à espera de uma decisão para continuar a trabalhar. Estamos a tentar recuperar o balneário e estamos a consegui-lo. Fazer com que elas acreditem que vamos voltar a ter momentos de glória é o meu grande objectivo e estou a conseguir. Como fui a primeira treinadora de uma equipa sénior feminina, gostava de deixar outro trabalho, que não deixaria neste momento.
“A segunda divisão feminina é a maior mentira do basquetebol português”
Patrícia Atilano não entra em discursos politicamente correctos. A treinadora feminina aborda todos os assuntos com a mesma frontalidade e na análise ao campeonato de basquetebol feminino, a treinadora não se inibe: “A segunda divisão feminina é a maior mentira do basquetebol português”. E para os leigos, Patrícia explica porquê:”Um campeonato que começa em Outubro e termina em Março, onde se joga fim-de-semana sim, fim-de-semana não e onde há paragens de um mês pelo meio, só pode ser uma mentira”. A treinadora vitoriana não sabe apenas apontar o dedo e, por isso, dá já algumas dicas à Federação. “No início da época, poderia realizar-se uma pré-competição para depois jogarem os mais fortes contra os mais fortes e os mais fracos contra os mais fracos. Deveria haver mais jogos porque nós passamos oito meses sem ter competição”, aconselhou. Para Patrícia, as desigualdades entre os campeonatos não fazem qualquer sentido. Porque, para ela, “todos investem tempo e dedicação e no caso da segunda divisão não há qualquer retorno”. “Há a ideia de que existe a liga profissional que serve para colocar atletas na Selecção e depois que se fazem outros campeonatos que é só para dizer que existem”, concluiu.

